Uma articulação nos bastidores do poder busca construir uma saída para o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, diante do avanço da crise envolvendo o caso Banco Master. Segundo reportagem do jornal O Globo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenta convencer o magistrado a se licenciar do cargo para reduzir o desgaste institucional e político em Brasília.
De acordo com a publicação, Lula tem recorrido a interlocutores próximos de Toffoli para defender um afastamento temporário, sob justificativa de saúde, e até mesmo cogitar, no médio prazo, uma saída definitiva da Corte. A avaliação no entorno do presidente é de que o caso ainda pode trazer novos desdobramentos, ampliando a pressão sobre o Supremo.
A preocupação no Palácio do Planalto se baseia na leitura de que as informações já divulgadas sobre a relação de Toffoli com o grupo do banqueiro Daniel Vorcaro podem não encerrar a crise. Segundo a reportagem, Lula teria afirmado a aliados que o material revelado até agora seria apenas parte de um problema maior, com potencial para novos episódios virem à tona.
Apesar disso, Toffoli resiste. Conforme o jornal, o ministro tem dito a pessoas próximas que não pretende se afastar e sustenta que não há risco de surgirem novas informações comprometedoras além das já apresentadas pelo diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, ao presidente do STF, Edson Fachin.
O documento da Polícia Federal citado menciona transações financeiras envolvendo Toffoli e o grupo de Vorcaro, incluindo o pagamento de R$ 35 milhões por participação em um resort do qual o ministro é sócio. Pressionado por colegas, ele deixou a relatoria do caso, mas Fachin optou pelo arquivamento do processo que tratava de sua suspeição.
Indicado ao Supremo por Lula em seu segundo mandato, Toffoli poderia permanecer na Corte até 2042, quando completará 75 anos. Por isso, qualquer eventual afastamento — mesmo que temporário — carrega grande peso político e jurídico.
Planalto teme agravamento da crise
Ainda segundo O Globo, Lula avalia que a crise não atinge apenas Toffoli, mas pode recolocar o STF no centro de um abalo institucional mais amplo. Nesse cenário, uma licença do ministro seria vista como medida para conter danos e reduzir a pressão pública sobre a Corte.
Esse cálculo também envolve o ministro Alexandre de Moraes, citado no contexto da crise. A avaliação no governo é de que é fundamental evitar maior exposição de Moraes em um momento de desgaste crescente do Supremo perante a opinião pública e setores políticos.
Aliados do presidente afirmam que Lula considera Moraes peça-chave na condução dos processos relacionados à tentativa de golpe que levou à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e de ex-integrantes de seu governo. Além disso, o Planalto reconhece que há uma associação política entre o governo e o ministro, o que amplia o impacto de qualquer crise envolvendo seu nome.
Moraes também entra no foco da turbulência
O caso Master também trouxe Alexandre de Moraes para o centro das controvérsias. Isso ocorre por causa de um contrato de R$ 130 milhões com o escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, além de mensagens trocadas com Daniel Vorcaro no dia da primeira prisão do banqueiro.
Segundo a reportagem, em uma dessas mensagens Vorcaro questiona o ministro sobre um suposto bloqueio, o que elevou a tensão política em torno do episódio e intensificou a pressão sobre o Supremo.
A preocupação no Planalto aumenta diante do fato de que Moraes deve assumir a presidência do STF a partir de 2027. Em um eventual novo mandato de Lula, os dois conviveriam diretamente, o que reforça o interesse do governo em evitar um desgaste prolongado da imagem do ministro e da Corte.
Desconfiança no STF cresce
A reportagem também aponta que pesquisas recentes já indicam aumento da desconfiança da população em relação ao Supremo. Levantamentos de institutos como Datafolha e Quaest mostram crescimento nos índices de rejeição e queda na confiança na Corte.
Os dados revelam que uma parcela significativa dos brasileiros demonstra maior inclinação a apoiar candidatos que defendem o impeachment de ministros do STF, enquanto os níveis de confiança na instituição registram quedas relevantes — cenário que acende alerta no governo.
Nesse contexto, o desgaste do Supremo deixa de ser apenas institucional e passa a ter impacto direto no ambiente político, fortalecendo discursos críticos à Corte e podendo influenciar a disputa eleitoral.
Impasse persiste
Apesar das articulações, o plano para afastar Toffoli enfrenta um obstáculo central: a resistência do próprio ministro. Segundo O Globo, ele não demonstra disposição para pedir licença nem admite a possibilidade de novos fatos agravarem a situação.
Ao mesmo tempo, há no Planalto a percepção de que o caso ainda pode evoluir. Esse cenário mantém o governo em alerta e explica a tentativa de antecipar medidas para conter a crise.
Entre pressões políticas, riscos institucionais e resistência interna, o episódio segue em aberto — e com potencial de impactar tanto o Judiciário quanto o equilíbrio político em Brasília.



